“O presidente não lidera, é uma irresponsabilidade completa, há um vácuo de poder”, afirma presidente nacional do PV, José Luiz Penna

Por Marco Sobreiro

 

O presidente nacional do PV, José Luiz Penna, usa a fala pausada e calma, aliada ao raciocínio aguçado, para fazer um diagnóstico preciso do Brasil em tempos de pandemia do Coronavírus. Para ele, o presidente Jair Bolsonaro não teve liderança suficiente para enfrentar a situação desde o início, demonstrando pouca preocupação com os mortos pela doença e iniciando uma escalada de decisões equivocadas – que incluem, atualmente, a falta de transparência na divulgação dos boletins diários da doença pelo Ministério da Saúde.

“A sociedade precisa de uma liderança clara e essa função seria do presidente, mas ele não a exerceu, deixando as pessoas confusas. É de uma irresponsabilidade completa”, afirma Penna, apontando o comportamento do presidente como um dos fatores causadores do baixo isolamento social, necessário ao combate da doença. “Nesse sentido, de forma geral é possível dizer que os governadores e prefeitos estão trabalhando com inteligência e eficiência. Isso faz com que eles, naturalmente, ocupem espaço nesse vácuo de poder que foi deixado pelo Governo Federal”, diz.

Penna enxerga um fator positivo neste situação, que é o fortalecimento do conceito de federalização, com os Estados desempenhando um importante papel de liderança na defesa dos interesses do país. “É algo que merece ser reconhecido em meio a essa crise que enfrentamos”, avalia. Sobre as eleições municipais deste ano, o presidente do PV entende que o adiamento é algo “imperativo” e tem ouvido opiniões de médicos e cientistas sobre os possíveis cenários de evolução da pandemia.

“Pelo que estamos ouvindo, e caso isso se confirme efetivamente, teremos um pico em julho e uma leve descida em agosto, com essa tandência se acentuando em setembro e outubro. O adiamento das eleições acabará sendo um caminho natural, para que se evitem aglomerações e riscos à saúde”, observa, apresentando logo em seguida a posição do partido sobre outro ponto ligado ao tema e debatido atualmente: “Somos contrários aos mandatos tampões e à coincidência das eleições em 2022”, esclarece.

Ainda no campo da política, Penna lembra que o PV vem se posicionando, há mais de um ano, de uma forma estratégica contra a polarização entre direita e esquerda, que marca o Brasil atualmente: “O PV tem procurado, ao lado de outros partidos, formar um grupo que apresente força e propostas capazes de se diferenciar dessa polarização, que a meu ver prejudica o país em vários sentidos”, diz.

E ele vai além, ao avaliar que a polarização acaba sendo benéfica para o grupo ideológico ligado ao bolsonarismo: “Num embate com a esquerda, e principalmente com o PT, entendo que o campo da direita leva vantagem, como acabou levando nas eleições presidenciais, e isso o favoreceria na permanência no poder”, pontua.

Músico, ator e diretor, Penna teve participação ativa na fundação e consolidação do PV, na década de 80. Em 1999, foi eleito presidente nacional do partido e percorreu o Brasil trabalhando na estruturação da legenda. Foi vereador em São Paulo (eleito em 2008), deputado federal por São Paulo (eleito em 2010) e comandou a Secretaria Estadual de Cultura no governo Geraldo Alckmin, em 2017.




“A política é municipalista, estamos ajudando a formar as futuras lideranças do Brasil”, diz secretária de Assuntos Jurídicos

Por Marco Sobreiro

 

O cotidiano da advogada Maria Marta de Oliveira é repleto de contatos com lideranças políticas do PV de todo o Estado de São Paulo. Secretária de Assuntos Jurídicos da Executiva Estadual, ela conversa diariamente com prefeitos, vereadores e pré-candidatos da legenda. Recebe demandas variadas e responde a todas elas, sempre com orientações atualizadas de acordo com a legislação vigente. Maria Marta gosta do que faz e faz uma análise interessante: segundo ela, este trabalho é fundamental para a formação das futuras lideranças políticas brasileiras.

 

“É claro que os governadores, os senadores e os deputados são muito importantes para o País, mas a política é municipalista. Todas as pessoas vivem nas cidades e os líderes políticos sempre começam suas carreiras nos municípios”, explica. E é isso o que ela está fazendo atualmente, ou seja, preparando os pré-candidatos do PV para as eleições municipais deste ano, que, por conta da pandemia do Coronavírus, estão cercadas de indefinições.

 

Por enquanto, tudo está no campo das possibilidades. Uma das alternativas é adiar a eleição para novembro ou dezembro. A outra é realizar o pleito no dia 4 de outubro, mas dividindo o pleito eu dois ou três dias, como forma de evitar aglomerações. De qualquer forma, não há nada decidido ainda e cabe à advogada Maria Marta acompanhar todos os desdobramentos desse assunto: “Estou acompanhando de perto e, assim que houver uma definição, daremos todas as orientações necessárias às lideranças do PV”, comenta.

 

Moradora de São Bernardo do Campo, Maria Marta entrou no PV em 1987, ao lado da também advogada Vera Motta. Elas fizeram um grande trabalho comunitário na cidade, com atendimento social e orientação jurídica aos cidadãos. Maria Marta dedicou-se depois a montar seu escritório de advocacia, mas nunca atuou em outro partido: “Sempre estive ligada ao PV e retornei às funções executivas a convite da Dra. Vera Motta, assumindo inicialmente a Secretaria da Mulher do PV do Município de São Bernardo do Campo e, posteriormente, a Secretaria de Assuntos Jurídicos do Partido Verde Estadual de São Paulo, relembra.

O trabalho prático é uma mescla de ensinamento e aprendizagem para Maria Marta. Ela explica que o contato com lideranças do partido é um exercício diário, transmitindo os conhecimentos que já possui e incorporando novidades: “Estou sempre estudando a legislação e acompanhando as mudanças, o que me faz estar sempre atualizada. O PV tem um grupo de lideranças muito capazes, participativas e parceiras. É um prazer trabalhar aqui e fazemos de tudo para que o partido esteja sempre bem preparado para as eleições”, observa.

 

Enquanto os pré-candidatos se preparam para a campanha – que começará oficialmente no dia 16 de agosto – , a advogada Maria Marta se dedica a preparar toda a documentação dos pré-candidatos (homens e mulheres) que disputarão os cargos públicos. “Começamos a trabalhar antes e vamos acompanhar toda a campanha. Fico feliz toda vez que recebo uma demanda e consigo  ajudar. Peço, sempre, que me retornem falando dos resultados assim sinto que minha orientação foi útil e positiva.”

 

“Além das minhas atividades junto ao PV Estadual e ao PV do meu Município, também advogo para o PV Nacional e que tem as demandas que são do Jurídico Nacional que eu colaboro. Essa atividade me proporciona o acesso diário ao TSE. Tenho orgulho da minha profissão”, finaliza.




“A pandemia do Coronavírus provoca uma reflexão sobre nossa relação com a natureza e os animais”, afirma Will Mendes Stahn

Por Marco Sobreiro

 

A dimensão da pandemia do Coronavírus, que atingiu todo o mundo, modificando a vida da população do planeta, deve estimular uma reflexão sobre a relação do homem com a natureza e os animais. Esta é a opinião de Willdson Mendes Stahn, o Will, secretário de Bem-Estar Animal do PV Paulista. Ele lembra que várias doenças que se alastraram pelo mundo nos últimos anos – como a gripe suína, a crise da vaca louca e mesmo os casos de dengue no Brasil – decorrem de um avanço desmedido do homem na natureza.

“Todas essas doenças têm como origem o consumo desenfreado de animais, que gradativamente vai avançando e atingindo espécies exóticas. A pandemia do Coronavírus foi apenas mais um capitulo dessa realidade. Chegamos ao ponto de ver o planeta inteiro paralisado, com as pessoas tendo que adotar quarentenas em diversos países. Esse é um sinal claro de que devemos rever nosso contato com a natureza. O homem está indo longe demais”, avalia;

Administrador de empresas, pós-graduado em Comunicação e mestrando em Meio Ambiente e Sustentabilidade, Will tem atuação política em Jacareí e sempre nutriu grande preocupação com o meio ambiente. Com uma carreira profissional que incluiu vivências na Holanda e na Alemanha, ele acredita que o cuidado com o planeta e a adoção de um modelo de vida sustentável são caminhos naturais e inevitáveis. “Sempre fui um ambientalista, mas agora, cursando mestrado na área, estou acrescentando uma formação teórica e acadêmica a esta atuação”, observa.

O termo sustentabilidade é utilizado por Will para caracterizar várias ações realizadas por ele e por seu grupo de apoiadores em Jacareí. Defensor da causa animal, ele lembra que o PV foi o partido pioneiro no Brasil a incluir o tema em sua estrutura interna – criando a secretaria por ele ocupada atualmente. “Existem ações isoladas de pessoas, além de outros que tentaram criar partidos relacionados especificamente à defesa dos animais, mas o PV foi o primeiro partido do Brasil a incorporar o tema em sua plataforma interna, até pela ligação natural com as bandeiras que sempre defendeu”, comenta.
Em Jacareí, Will é um realizador constante de eventos de defesa e adoção de animais, além de estimular a alimentação sustentável. O Instituto Novos Sabores, fundado por ele e no qual hoje atua somente como voluntário, é outra iniciativa que busca uma relação mais harmoniosa entre o homem e a natureza. O instituto estimula o reaproveitamento de alimentos, possui um canal de receitas e realiza ações nos bairros levando orientação aos cidadãos sobre como manter uma dieta mais saudável.

O termo sustentável é usado no lugar do tradicional “vegano” por ser mais amplo e menos restritivo, como explica Will. Para ele, a alimentação sustentável exclui o consumo de carnes, estimula a utilização de legumes, verduras e frutas, mas também acrescenta o pilar da sustentabilidade: “Além de todas essas características, também queremos reduzir o impacto ao planeta, por exemplo, evitando frituras e estimulando práticas que sejam menos agressivas à natureza”, detalha.

Com o relaxamento gradativo do isolamento social e a reabertura paulatina das atividades econômicas, Will pretende intensificar as ações de conscientização em Jacareí, sempre orientando a população sobre os valores do PV e os cuidados com o mundo pós-pandemia – ainda que o Coronavírus continue sendo uma ameaça: “Sempre trabalhei pela causa ambiental e entendo que o momento pede um engajamento maior nesse sentido, afinal a pandemia foi um sinal de alerta que não pode ser ignorado”, finaliza.




O fascismo eterno e o fascismo tabajara, por Fernando Gabeira

Fascismo tabajara é uma feliz expressão criada pelo cientista político Luiz Werneck Vianna. Fascismo eterno é um conceito do intelectual italiano Umberto Eco e foi tema de uma de suas conferências nos EUA.

Como muita gente nova tem me perguntado o que é o fascismo, resolvi trabalhar um pouco o tema, partindo das características eternas do fascismo para suas manifestações tropicais. A conferência de Umberto Eco acabou resultando num livro de 64 páginas. Ele entende como fascismo esse regime nacionalista, autoritário, que vigorou na Itália e foi derrubado no final da Segunda Guerra.

Quando garoto, Umberto Eco participava de concursos de composições com esse tema: “Devemos morrer pelo glória de Mussolini e o destino imortal da Itália?” Como um garoto esperto, respondia que sim. Eco viu os americanos ocuparem a Itália, Mussolini ser executado e refletiu tantos anos sobre o fascismo que acabou extraindo do regime as suas características que sobrevivem aos tempos.

São 14 traços essenciais e, segundo Eco, não precisam estar todos presentes para definir um regime fascista. É temerário condensá-los num curto artigo e apontar sua manifestação tabajara.

Alguns, no entanto, são tão evidentes que não demandam profundas análises comparativas.

Eco acha que para o fascismo eterno não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. “Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.”

Daqui salto para dois outros traços essenciais: a relação com a cultura e a relação com as armas. Para o fascista, a relação com a cultura também é uma guerra permanente. Daí a célebre expressão atribuída por Eco a Goebbels: “Toda vez que ouço falar de cultura tenho vontade de sacar minha arma.”

No campo das armas, também se desenha um traço essencial do fascismo eterno. O fascismo eterno transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem de seu machismo, que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos não conformistas, como o homossexualismo.

Para Eco, o herói do fascismo eterno, para quem o sexo é um jogo difícil de jogar, prefere jogar com as armas, um simbolo fálico, e seus jogos de inveja se devem a uma permanente inveja do pênis.

Para aqueles que se veem despojados de qualquer identidade social, o fascismo diz que o único privilégio comum a todos é terem nascido no mesmo país. É a base do nacionalismo extremado. O único elemento que pode conferir identidade é o inimigo.

No fascismo há uma obsessão com a conspiração, sobretudo a internacional. Esse talvez seja um dos traços mais decisivos na nossa política externa. A própria ONU parece ser uma sede de conspiração, assim como a OMS e outros organismos internacionais. O aquecimento global é uma invenção do marxismo globalizante, o corona é um vírus comunista, destinado a enfraquecer os países do Ocidente.

Entre os 14 traços essenciais do fascismo eterno, na concepção de Eco, está também a recusa da modernidade. Escrevi sobre ele, mostrando que a proposta de Bolsonaro na verdade é uma retropia, uma volta a um passado ideal, ordenado e tranquilo, desenhado por Damares, com meninos vestidos de azul, meninas, de rosa.

O fascismo tabajara também defende um tipo de tradição religiosa, na qual a verdade foi revelada e não há espaço para o avanço do saber.

Só que aqui a verdade foi revelada nas profecias evangélicas, segundo as quais Cristo deve retornar ao Oriente Médio, quando Israel recuperar suas terras. É essa profecia que move o governo Bolsonaro a querer mudar para Jerusalém a embaixada brasileira.

O interessante, para finalizar, sem finalizar de fato porque há muito o que comparar ao longo dos traços restantes, o fascismo vê diversidade como um sinal de desacordo. Ele busca o consenso exacerbando no natural medo pela diferença. Seu primeiro apelo é contra os intrusos, logo, por definição tende ao racismo.

Umberto Eco morreu recentemente. Não viu surgir de novo o movimento antifascista. Mas, sobretudo, não pôde incluir um traço ao fascismo eterno que surge aqui como nos Estados Unidos: o fascismo chama de terrorista quem se insurge contra ele.

Artigo publicado no jornal O Globo em 08/06/2020




“A política precisa de novas lideranças e os jovens estão preparados”, afirma Bruna Barros

Por Marco Sobreiro

A participação dos jovens no cenário político – tanto na articulação partidária como no exercício de cargos públicos – é importante e vem crescendo graças a fatores como a revolução digital e as manifestações populares que marcaram o país nos últimos anos. Mais do que isso: os brasileiros com menos de 35 anos assumem cada vez um papel de protagonismo na sociedade, defendendo valores e ideais que não podem ser ignorados, como o acesso à educação, à igualdade de oportunidades, além da sustentabilidade ambiental e da gestão pública eficiente.

A análise é feita pela secretária de Juventude do PV paulista, Bruna Barros. Aos 32 anos, filiou-se ao partido em 2018 a partir de sua atuação no Movimento Acredito – que atua apoiando uma nova geração de lideranças brasileiras dispostas a construir uma nova forma de fazer política. “O PV possui a tradição da defesa de causas ambientais e, além disso, também tem um engajamento em questões como a defesa dos povos indígenas, dos quilombolas e o combate ao racismo”, frisou.

Para Bruna, os jovens passam a se interessar por política principalmente quando observam na prática as consequências das ações do Estado. Ela cita um exemplo próprio, mencionando a graduação em Ciências Contábeis, concluída na Unesp de Marília e conquistada após muito esforço e o apoio indispensável do ProUni. “Sem o ProUni, seria muito difícil fazer o curso. Quando você vê uma política pública mudar algo na sua vida, passa a entender o valor e importância das ações políticas”, observa.

Como secretária da Juventude do PV paulista, Bruna se preocupa não apenas em atrair jovens, mas também como isso deve acontecer. E as ferramentas incluem obrigatoriamente um formato voltado para esse público: “Os jovens assistem Youtube, interagem no Instagram e ouvem podcasts. Essas são as ferramentas que vão atingir essa camada da sociedade. Textos muito longos e gráficos feios dificilmente ajudarão um partido a dialogar com essas pessoas”, frisa.

A transparência é outro ponto fundamental na prática política, salienta Bruna. Para os jovens e para os cidadãos de uma forma geral, é preciso saber de forma clara e objetiva como os partidos funcionam, quais são suas bandeiras, objetivos e atuação: “Se existem muitas pessoas que são filiadas e não conhecem bem esse mecanismo, imagine então quem está do lado de fora. Essas informações são fundamentais para atrair a sociedade e isso faz parte do nosso desafio de renovar a prática política”, finaliza.




Algumas notas para resistir, por Fernando Gabeira

Depende de nós frear a marcha totalitária, deter o obscurantismo. É só querer

O poeta Carlos Drummond escreveu estes versos: Deus me deu um amor no tempo de madureza/ quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. Conversando com um político da minha
geração, esta semana, lembrei-me do poeta quando ele disse: “Deus nos deu uma luta pela democracia, nos últimos anos de vida”.

Não esperávamos por essa. No entanto, não dá mais para ignorar que o sinal vermelho do regime autoritário está aceso no Brasil.

De um lado, vê-se um presidente falando em armar o povo, como Mussolini ou Chávez, e isso diante de uma plateia de generais indiferentes à gravidade desse discurso; de outro, um general falar em crise institucional porque um ministro do Supremo apenas cumpriu um artigo do regimento interno, despachando um pedido para o procurador-geral da República considerar: a perícia no telefone do presidente da República.

Nossa atenção estava toda concentrada na pandemia, o maior desafio depois da 2.ª Guerra Mundial. Mas um ministro diz na reunião do conselho que é preciso aproveitar nossa atenção no coronavírus para passar uma boiada de medidas que não suportam a luz do sol.

Pois muita coisa está se passando diante dos nossos olhos consternados com a sucessão de mortes e amedrontados com a síndrome respiratória aguda. Bolsonaro seduziu as Forças Armadas com verbas orçamentárias e uma suave reforma da Previdência. E mais ainda, fez um apelo ao salvacionismo que viaja no espírito deles desde a Proclamação da República e abarrotou o governo com militares.

Tudo indica que estão anestesiados. Generais reagem com sonolência a um projeto de milícias armadas. Sabem que Bolsonaro é homem de denunciar fraudes nas eleições que venceu, logo estará pronto para pegar em armas quando for derrotado adiante.

A origem positivista marcada pela aliança com a ciência foi jogada no lixo e um general se adianta para substituir médicos e inundar o Brasil com uma cloroquina que a OMS não aprova. Se as Forças Armadas resolveram encampar a política negacionista de Bolsonaro diante do vírus, se aceitam que milhares de mortes sejam debitadas na sua conta, é porque já decidiram mandar para o espaço o tipo de credibilidade que ganharam nos últimos anos.

Elas vêm pra cima com o mesmo ímpeto com que os militares venezuelanos defendem o seu governo autoritário. Por isso é preciso preparar a resistência.

A primeira lição é não ver essa luta, que para alguns se dá no final da vida, com os mesmos olhos da juventude. Mesmo porque só generais incompetentes veem uma nova batalha como se fosse a repetição da anterior.

Nada de armas. Num conflito moderno, a superioridade moral é decisiva. Eles vão se enrolar nas benesses do governo numa das crises mais profundas da História.

Olhar para o mundo. Não como no passado, exportando relatórios clandestinos e, com alguns contatos, denunciar desrespeito aos direitos humanos. Isso não é mais o principal. Agora existe a internet, uma infinidade de contatos possíveis com o planeta. Não precisamos comover apenas com corpos torturados, mas convencer os outros povos de que um governo cuja política destrói sistematicamente a Amazônia e favorece epidemias como a do coronavírus é ameaça também à existência deles.

Compreendo que ter o mundo a favor não basta para derrubar um regime autoritário. A Venezuela é um exemplo de que sem uma força coesa internamente não se chega a lugar nenhum. Aí está realmente o problema central: o instrumento. Ele precisa ser uma frente democrática ampla, madura, sem conflitos de egos, sem estúpidas lutas pela hegemonia, tão comuns na esquerda.

Chegamos perto disso no movimento pelas diretas. Candidatos a um mesmo posto conviviam harmonicamente no período de lutas e mais tarde buscavam caminho próprio nas eleições. Mas o
próprio movimento das diretas é muito velho para o momento. Novas forças surgiram. Atores políticos menos experientes, mas com a capacidade de falar para milhões de pessoas, entraram em cena.

Na conversa que tive com o amigo disposto a lutar a última luta da vida, chegamos à conclusão de que é preciso apenas um núcleo que saiba contornar as bobagens dos que só pensam no poder e consiga estimular a criatividade social, diante dessa ideia de que a democracia não pode morrer no Brasil.

Não adianta ficar reclamando que o Congresso e o Supremo não conseguem frear a marcha totalitária. Isso depende de nós: é só querer. Na verdade, milhares hoje dão sua pequena contribuição, criticando, resistindo, às vezes até ridicularizando pelo humor.

Todo esse esforço molecular está, na verdade, ligado entre si. O que às vezes impede a consciência dessa união é o desprezo pela política, compreensível pelo que ela se tornou no Brasil.

Mas não se trata de aderir a um partido, militar no sentido clássico. A luta contra o coronavírus, por exemplo, é uma ampla frente pela vida que vai do carregador de maca ao cientista. As pessoas estão unidas pela urgência do presente, sem perguntar de quem é a culpa pelo vírus.

Da mesma forma, não interessa agora saber de quem é a culpa pela marcha do obscurantismo.
É preciso detê-la.

* FERNANDO GABEIRA É JORNALISTA

Artigo originalmente publicado no Estadão e no site pv.org.br